BROMELIÁRIO
Legado botânico de Raulino Reitz sob a perspectiva artística de Walmor Corrêa
Nascido em Florianópolis e radicado em São Paulo desde 2010, o artista Walmor Corrêa mantém, em sua longa trajetória, uma relação artística vital com a flora e a fauna brasileiras.
O mundo natural é a matéria de séries como “Metamorfoses e Heterogonia”, em que revisita os estudos pioneiros de José de Anchieta (1534-1597) no ambiente da Mata Atlântica; e em “Biblioteca dos Enganos”, a partir de pesquisas de zoologia brasileira do naturalista Hermann von Ihering (1850-1930); ou, mais recentemente, na série “Etnografia Cultural da Flora Mágica Brasileira”, cujos notórios herbários o artista desenvolveu a partir do trabalho de campo feito no Mercado Ver-o-Peso, em Belém do Pará, em 2018.
A natureza de Santa Catarina foi objeto de intensas pesquisas do Padre Raulino Reitz (1919-1990), botânico que se dedicou ao estudo das palmeiras, araucárias, orquídeas e, em especial, das bromélias, uma afeição que lhe conferiu o honroso codinome de Padre dos Gravatás. Walmor convive com essa vasta obra botânica há cinco anos e, com a colaboração fundamental do biólogo Luis Adriano Funes, curador do Herbário Barbosa Rodrigues – instituição fundada pelo Padre Raulino, em 1942, em Itajaí (SC) -, dedica a sua nova série de pesquisa e arte a essa planta rústica, injustamente marginalizada, minuciosamente estudada por Reitz.
Assim, em pequenas pinturas, Walmor Corrêa retrata localidades catarinenses onde certas expedições de Raulino realizaram coletas e descobertas de espécies de flora nativa, com suas paisagens idilicamente intocadas e sem marcas da ação humana. São obras que alternam paisagens puras e pinturas que incluem bromélias ou pássaros e insetos polinizadores, sendo que três telas retratam unicamente estes últimos.
Mesmo que a paisagem predomine, o artista traz indícios cientificamente precisos, na própria borda da tela, de qual agente biótico poliniza cada espécie de bromélia própria do habitat local.Nesta coleção o artista inclui a arte da azulejaria, em trabalhos tridimensionais e em painéis emoldurados que representam diferentes espécies de bromélias, tendo por referência ”Bromeliáceas e a malária – bromélia endêmica” (1983), o livro de autoria de Raulino Reitz com desenhos do artista Domingos Fossari, publicação que descreve 59 espécies e faz parte da “Flora Ilustrada Catarinense”, coleção editada pelo Herbário Barbosa Rodrigues entre 1965 e 2006.Seis espécies de bromélias, suas flores e respectivos polinizadores compõem o núcleo das gravuras, em diálogo com um revestimento de parede artístico que recria uma floresta bromeliácea.
Há ainda o anúncio de desdobramentos desta série em esculturas em bronze e peças de porcelana Strauss.
A variação e a sofisticação da vida das plantas é uma dimensão de biodiversidade que o artista ativa e renova em diversos suportes e técnicas, talvez tendo em mente a estratégia de evolução descentralizada que é própria dos seres vegetais. Com esse impulso de descentrar-se, Walmor se afasta da produção habitual, em que convivem real e imaginário, e acolhe o gesto de, à maneira das ilustrações científicas, representar as bromélias com fidelidade absoluta. É o seu tributo ao rigor científico do botânico catarinense Raulino Reitz. Excetuam-se pequenas esculturas de beija-flores, que, embora não tendo sido desenvolvidas especificamente para essa série, complementam o núcleo de pinturas sobre polinizadores, assim como um ramalhete de pimenta-dedo-de-moça.
Neste conjunto de obras, Walmor Corrêa tanto celebra a flora de Santa Catarina e homenageia o legado de Raulino Reitz, destacando sua importância para a botânica brasileira, quanto renova, localmente, nosso interesse pela vida da flora, da fauna e da imensa biodiversidade brasileiras.
Fabricio Tomazi Peixoto
Curador da mostra
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Florianópolis – SC